16/11/2007

Super Homens

Hoje em dia o cara tem que ser bom aluno, bom trabalhador, bom filho, bom pai, bom marido, bom amigo e ainda tem que curtir bem a festa no final de semana. Tem que demonstrar valor e ainda dar valor ao que se diz que tem valor. Isso custa caro. Não dá nem pra parar pra pensar, é uma grande vitamina de tudo isso batido no liquidificador que o cara tem que engolir correndo no café da manhã, porque não há tempo, e porque é "bom", ou melhor "muito bom", na verdade mais muito do que bom. Não dá pra parar, e nem adianta, pois se ele pára, ele não pensa. Aliás, até pensa: "poxa, nada pra fazer." Como nada pra zer? A verdade está lá fora! Bem, melhor eu não falar isso não porque é capaz dele pôr o pé lá fora e enxergar a correria do mundo no qual ele mesmo está inserido.
Agora me diz como que alguém pode fazer tudo isso bem feito? Junta trabalhar "bem" com estudar "bem": já acabou o dia! "É pra isso que tem o final de semana." Ah sim, você quer dizer o domingo né? Porque até no sábado já se trabalha e se estuda "bem". Tem gente que nem o domingo tem, mas "tudo bem". Daí domingo ele cumpre com suas outras "dívidas": "tô devendo levar minhas crianças no parque", "tô devendo jogar uma sinuca com fulano", "tô devendo levar minha mulher no restaurante". Daí ele paga essas dívidas, que são supostamente dívidas consigo mesmo, arranja outras dívidas a pagar no outro "final de semana", acorda todo quebrado pro trabalho ou pra aula na segunda, e o máximo que ele consegue refletir sobre o assunto é "odeio segunda-feira". Muito "bem"!
E de que adiantam todas essas virtudes, se quanto mais virtudes o cara tem, mais vicioso ele tem que ser? Quanto mais ele ganha, mais ele tem que gastar. Quanto mais bem sucedida a virtude do trabalho, mais bem sucedido o vício da luxúria. A bem sucedida virtude do estudo também pode virar o bem sucedido vício da vaidade acadêmica. Aliás, a vaidade é praticamente onipresente entre essas virtudes todas. Orgulho em ter aquilo que disseram pra ele que seria legal ter. Aliás, ter não basta, tem que mostrar que tem.
Nossos ancestrais eram pouco "desenvolvidos", ou melhor, pouco "produtivos", eram coitados e infelizes sem saber, sem nossa tecnologia, sem nossas "facilidades", aliás, facilidades as quais parecem só dificultar cada vez mais nossas vidas. O mundo já é digital, mas o relógio no braço infelizmente não pode dar mais do que 24 horas para o dia. O cara pensa "24 horas é pouco!" mas não sabe ao certo pouco pra quê ou porquê. De repente ele até tem noção da resposta, mas a mente dele não toma consciência da situação.
Será que a vida de nossos ancestrais era tão pior do que a nossa? Quanto mais se compreende a vida daqueles que "não tinham nada pra fazer", mais se percebe que eles tinham uma percepção da vida muito mais ampla do que a do homem moderno. A sabedoria permeava sociedades que mal sonhavam em utilizar luz elétrica, nem por isso pensavam "oh não! 'nada pra fazer' à noite!" E até hoje nos inspiramos, quando dá tempo, em pensadores de milênios atrás. E hoje multiplicam-se aquelas igrejas, em um consolo espiritual para aqueles que começam a tentar entender alguma coisa além do que a sociedade ensina. Mas isso aí também vai e vira algo que dizem pro cara que ele tem que fazer: ir à igreja. Havia um tempo em que os templos sequer tinham paredes. O cara não ia lá louvar o que diziam pra ele que ele devia louvar. Ele ia lá pra tentar entender, pois ele ainda tinha o tempo e a habilidade de questionar, de tentar perceber uma realidade maior, algo além da vida social dele. Hoje a igreja é social. Adorar a Deus é politicamente correto, mesmo que você não entenda muito bem o porquê disso. E vista sua melhor roupa para ir à igreja.
Esses antepassados tinham a incrível habilidade de pegar situações, sentimentos, coisas e fatos da vida e transformá-los em deuses, personagens em histórias que então seriam os símbolos do teatro da vida. Daí chegamos nós, modernos e super inteligentes, e dizemos que pela "ignorância" deles, eles adoravam aqueles deuses porque não tinham a tecnologia para entender o que é a realidade. Dizemos que eles estavam enganados. Damos valor negativo às palavras "mito" e "lenda" sem nos darmos conta de que muito da mitologia é sabedoria de vida transformada em símbolos. As histórias não eram feitas parar adorar, e sim para compreender.
E aquelas pedras? Aquelas construções antiquíssimas que mesmo com a nossa moderníssima tecnologia não conseguimos reproduzir? É só pôr a etiqueta de "mistério" e tá tudo bem. Continuamos fazendo modernos cálculos pra tentar descobrir. Seguimos numa linha de raciocínio sem perceber que antigamente a lógica era outra. Será que estamos realmente no caminho certo? Será que não estamos deixando algo muito importante pra trás? Será que nós, super-homens modernos, que fazemos de tudo e mais um pouco, que respondemos à pergunta "quem sou eu?" dizendo o número do RG, será que somos tão melhores do que aqueles que sequer precisavam de documentos? Em que sentido o conhecimento humano está evoluindo? E a que custo?
Esse texto mesmo não era pra existir. Comecei a escrevê-lo quando eu devia estar indo dormir, noite de sexta, para acordar às 6 da manhã de sábado, para trabalhar. Assim caminha, ou melhor, corre e voa a humanidade.

17/10/2007

funcionar

Um trecho de um filme me lembrou de uma questão sobre a qual poucos estão conscientes. No filme, de ficção científica, os bombeiros eram às avessas, eram pagos para encontrar e queimar livros, e os leitores eram considerados criminosos pelo simples fato de ler. Quando um dos oficiais foi perguntado sobre seu trabalho, ele respondeu "é um bom trabalho, o salário é bom, as condições de trabalho são boas, não tenho o que reclamar". E é mais ou menos assim que funcionam os funcionários de hoje em dia. Não interessa muito o que a companhia faz, como, onde e por quê, contanto que as condições individuais de trabalho sejam satisfatórias. E assim os trabalhadores funcionam como peça de uma máquina maior sem saber ao certo o que eles estão ajudando a essa grande máquina fazer. É o velho sonho militar na sociedade: o soldado que está na guerra sem pensar se sua causa lhe é justa, ele apenas obedece e age. Já deixei um trabalho, onde eu estava encaminhado para ser chefe, por me sentir extremamente incomodado em ter que defender uma coisa a qual eu sou ideologicamente contra. Porém, muitos mal têm atitude, e acabam assumindo a atitude da empresa, até que um dia a realidade da vida lhes abra os olhos, se é que tais olhos não já terão aprendido a apenas funcionar, ao invés de enxergar. É cada vez mais difícil enxergar nesse mundo que te empurra para agir. Não há tempo pra refletir, apenas para decidir.

07/10/2007

(des)processamento (in)consciente da (ir)realidade

...o que você tinha me dito mesmo...? Ah, sim, você falou tudo aquilo que abala meus pilares, que seria capaz de mudar toda minha vida. Você disse tudo aquilo que eu não queria mas precisava ouvir. Você disse como mudar minha vida, como conseguir força, como me equilibrar na louca corda bamba da vida. Você me deu lições de independência, de como não ter influência nem do dinheiro e nem dos outros sobre meu humor. Você me mostrou que nem tudo, ou quase nada, é como a gente acha que deveria ser, e que temos que aprender a conviver com isso. Você me ensinou que às vezes é preciso mudar para sobreviver à dura realidade. Você me mostrou que às vezes eu preciso ser mais duro do que a dureza do mundo. Você disse que a vida é como uma guerra, em que, quando sozinho numa selva com o barulho de jatos, tiros e bombas por todos os lados, tem muito mais chances de sobrevivência o soldado que não vai à loucura, não se desespera e se vê maior do que aquilo tudo. Você me mostrou o quanto que o desespero me faz tomar decisões erradas. Você me mostrou as contas do quanto que meus valores deveriam mudar para que a cura da minha dor viesse de mim mesmo. Me mostrou que os olhos que me julgam são os meus próprios olhos, e que mudando minha visão do mundo, nenhum olhar alheio seria capaz de me atingir. Você me mostrou como mudar para sobreviver a um mundo de constantes mudanças, também me falando da evolução das espécies para sobreviverem a uma nova realidade. Porém, eu não vou mudar, pois esse é quem eu sou, e justifico meu sofrer. Pois meu signo é tal! Por isso meu defeito é tal! Pois isso é correto, aquilo é errado, e pensar de outra maneira é imoral! E eu tenho que me sentir atingido por aquilo que é errado! Pois eu estou correto! Por que mudar, se estou correto?! E há de se sofrer pelo que eu considero incorreto! E meu sofrimento me sufoca! Queria eu que Deus acabasse com esse sofrimento! Queria que Ele me desse um alívio! Queria que Ele mudasse essa realidade! Pois eu estou à beira da loucura! E... o que você tinha me dito mesmo...? Me diga apenas "Deus vai te ajudar!" Me diga "Vai dar tudo certo!" Me diga palavras de passar a mão na cabeça e não te esquecerei nunca! Me diga qualquer coisa que concorde comigo, pois nessa cabeça dura aqui, não há como entrar outra realidade. Eu estou correto; confronte meus pensamentos e eu apenas discutirei contigo e o considerarei meu inimigo por ter tentado me ajudar.

05/10/2007

escravo da escrita

...e um dia ele virou escravo da escrita. Ele ao mesmo tempo queria e não queria escrever. Sua alma não tinha nada pra dizer, mas sua razão dizia "escreve!" A inspiração não vinha, a idéia não surgia, mas sua razão dizia "escreve!" Ele estava na sua santa paz, mas vinha o diabinho da razão e dizia na orelha dele "escreve!" Cabeça vazia, oficina do diabo! Vade retro satanás! Não vou cair na tentação de escrever qualquer besteira simplesmente por escrever! Não vou me tornar como certos outros blogueiros e certos jornalistas que "falam pelos cotovelos" como se escrever já fosse uma dependência química na vida da pessoa, e acabam falando coisas que o ouvinte/leitor depois pensa "perdi meu tempo com isso." Tá certo que esses jornalistas não têm escolha, eles têm que falar, independentemente de sua vontade, eles têm que escrever aquele artigo pra aquela coluna, pra aquele dia. Daí ou eles aprendem a falar bobagem ou aprendem a criticar tudo e todos, pois alguma coisa eles têm que falar. "Mas dá pra falar bem mesmo sem vontade!" diz a razão. Ah dá, dá sim, tipo trabalho acadêmico, recontar com suas próprias palavras o que você pesquisou. Mas não dá pra simplesmente inventar sua opinião. Soa falso, soa como uma opinião que não é sua. Taí mais uma opção: ou você fala bobagem, ou você critica, ou você finge que fala. Mas tem um ponto positivo nisso: começar a falar/esrever, mesmo que você a princípio não esteja dizendo nada, pode ajudar a trazer à mente algo que vale a pena dizer. Às vezes.

01/10/2007

Atrofia do Sentir

Os poetas hoje em dia têm que ser explícitos ou quase isso. Não, não me refiro necessariamente a sexo. O poema de hoje tem que passar uma mensagem quase direta, ou correrá o risco de ser taxado como ruim pelos seus leitores, pois o leitor moderno não vai querer quebrar a cabeça, o pouquinho que seja, para entender o poema. São leitores do tempo-é-dinheiro. Para eles, ler o mesmo poema duas vezes seguidas é quase um pecado. Tem que ser poesia fast-food: rápida e fácil, sem se preocupar muito com o conteúdo ou com a digestão do mesmo. Se parecer bonito, já tá bom. Afinal, o que importa é a contabilidade dos pensamentos. Tô feliz, tô no lucro. Não vou me debruçar sobre um "texto" existencial complexo, pois "se eu paro, eu penso, se eu penso, eu choro." Não vou tentar entender uma questão que poderia me fazer amadurecer e mudar minha visão de mundo, pois "time que tá ganhando não se mexe". E cada vez mais o mundo não se mexe, só faz de conta que se mexe. Na academia você faz de conta que anda de bicicleta, faz de conta que corre. Casais fazem de conta que se amam, muitas vezes sem se darem conta disso. Pois hoje em dia, te dão uma fórmula de como sentir o mundo - e você aprende a fazer de conta que sente o mundo, ficando expert na sensibilidade do seu bolso. "Sentir no bolso" é o sentimento dessa era, que quem sabe no futuro poderá ser batizada como "Dinheirismo". A essa altura eu já devo ter espantando todos os "dinheiristas": o cara quer que eu leia isso tudo? tá louco... Vamos viver o carnaval, o que vem aos olhos, o que vem aos ouvidos, o que vem à boca, o que vem ao corpo, vamos festejar a festa dos sentidos. Mas... que sentidos?
Sentidos agite-antes-de-consumir para pessoas sem consciência do próprio paladar. Tem uns que parecem até que despertaram de uma matrix, e falam que descobriram que não gostavam de determinada coisa, e falam "como eu pude dançar àquela música?" A resposta é: "estômago" lento, demorou para digerir e decidir se aquilo era bom ou ruim pra você. Mas é essa a estratégia que você aprende no mundo moderno: melhor a alma não digerir para não correr o risco de causar uma indigestão no corpo. Vamos viver sem emoções fortes, até que uma chegue sem avisar e derrube o castelo de areia que psiquiatra nenhum vai ser capaz de reconstruir.

Boa indigestão.

26/09/2007

Barrem Barretos

Eu já escrevi sobre rodeios uma vez mas resolvi escrever de novo. Eu podia até falar das várias formas como vários animais usados em rodeios sofrem lesões pra embasar uma fundamentação anti-rodeio, mas prefiro falar mais informalmente do animal mais exposto que é o touro. É, esse animal "bravíssimo" que você vê peões montando pra desafiar toda aquela "selvageria". Acontece que esse touro ficaria calminho o tempo todo se não fosse por um tipo de cinto que passa por cima das bolas do touro. Isso mesmo. No momento em que abrem aquela portera onde estão o touro e o peão, é também o exato momento que algum ajudante ali do lado puxa esse cinto pra apertar bem o saco do touro pra ele sair esperneando. O touro não tá nem aí pro peão! Ele quer é se livrar daquela porcaria que amarraram nele e que causa uma dor insuportável nas suas partes baixas. Tanto que se o peão cai, o touro continua pulando até o cinto afrouxar ou afrouxarem o cinto, o que é uma das funções daqueles palhaços. Daí o peão sai como o herói e o touro fica com a imagem de "violento" porque de repente ele tenta atacar quem seria o fdp que amarrou aquilo nele. Só tem touro domesticado ali, se não eles não o colocariam naquela celinha e nem colocariam um peão em cima dele. Me diz como você reagiria se alguém apertasse suas bolas sem querer largar? Qualquer homem viraria um "animal". A consciência quanto ao respeito à natureza está se expandindo no mundo todo, menos nesses rodeios, onde a tortura de animais é vista como diversão. Eu torço pro touro.

24/09/2007

Feito Pombinhos

Ele estava fazendo um lanche quando, no meio daquele bando de indivíduos iguais, se destacou aos olhos dele uma bonitinha. Ele então tomou coragem, estufou o peito e foi lá dançar perto dela, ao redor dela, tentando chamar a sua atenção, tentando mostrar o quanto ele era sarado e o quanto ele dançava bem. Às vezes até cantava baixinho, só pra mostrar que estava "no clima". Até que então ele se aproximou, ela resolveu seguir seu instinto, ou sua intuição, e os dois ficaram juntos, como dois pombinhos questionavelmente "apaixonados". Um não sabia o nome do outro, e na verdade a última coisa que importava para eles eram nomes. Para a infelicidade deles, de repente o ambiente todo veio abaixo. A prefeitura tinha dado ordens de destruir o pombal por já terem sido constatados alguns casos de peste bubônica nas redondezas, e suspeitavam do envolvimento dos pombos nesse crime. O casal fugiu, cada um para um lado, sem se importar se se perderiam. E passaram a mendigar comida pelos restaurantes da cidade. E viveram... indeferentes para sempre, aliás, como sempre tinham vivido.