Hoje em dia o cara tem que ser bom aluno, bom trabalhador, bom filho, bom pai, bom marido, bom amigo e ainda tem que curtir bem a festa no final de semana. Tem que demonstrar valor e ainda dar valor ao que se diz que tem valor. Isso custa caro. Não dá nem pra parar pra pensar, é uma grande vitamina de tudo isso batido no liquidificador que o cara tem que engolir correndo no café da manhã, porque não há tempo, e porque é "bom", ou melhor "muito bom", na verdade mais muito do que bom. Não dá pra parar, e nem adianta, pois se ele pára, ele não pensa. Aliás, até pensa: "poxa, nada pra fazer." Como nada pra zer? A verdade está lá fora! Bem, melhor eu não falar isso não porque é capaz dele pôr o pé lá fora e enxergar a correria do mundo no qual ele mesmo está inserido.
Agora me diz como que alguém pode fazer tudo isso bem feito? Junta trabalhar "bem" com estudar "bem": já acabou o dia! "É pra isso que tem o final de semana." Ah sim, você quer dizer o domingo né? Porque até no sábado já se trabalha e se estuda "bem". Tem gente que nem o domingo tem, mas "tudo bem". Daí domingo ele cumpre com suas outras "dívidas": "tô devendo levar minhas crianças no parque", "tô devendo jogar uma sinuca com fulano", "tô devendo levar minha mulher no restaurante". Daí ele paga essas dívidas, que são supostamente dívidas consigo mesmo, arranja outras dívidas a pagar no outro "final de semana", acorda todo quebrado pro trabalho ou pra aula na segunda, e o máximo que ele consegue refletir sobre o assunto é "odeio segunda-feira". Muito "bem"!
E de que adiantam todas essas virtudes, se quanto mais virtudes o cara tem, mais vicioso ele tem que ser? Quanto mais ele ganha, mais ele tem que gastar. Quanto mais bem sucedida a virtude do trabalho, mais bem sucedido o vício da luxúria. A bem sucedida virtude do estudo também pode virar o bem sucedido vício da vaidade acadêmica. Aliás, a vaidade é praticamente onipresente entre essas virtudes todas. Orgulho em ter aquilo que disseram pra ele que seria legal ter. Aliás, ter não basta, tem que mostrar que tem.
Nossos ancestrais eram pouco "desenvolvidos", ou melhor, pouco "produtivos", eram coitados e infelizes sem saber, sem nossa tecnologia, sem nossas "facilidades", aliás, facilidades as quais parecem só dificultar cada vez mais nossas vidas. O mundo já é digital, mas o relógio no braço infelizmente não pode dar mais do que 24 horas para o dia. O cara pensa "24 horas é pouco!" mas não sabe ao certo pouco pra quê ou porquê. De repente ele até tem noção da resposta, mas a mente dele não toma consciência da situação.
Será que a vida de nossos ancestrais era tão pior do que a nossa? Quanto mais se compreende a vida daqueles que "não tinham nada pra fazer", mais se percebe que eles tinham uma percepção da vida muito mais ampla do que a do homem moderno. A sabedoria permeava sociedades que mal sonhavam em utilizar luz elétrica, nem por isso pensavam "oh não! 'nada pra fazer' à noite!" E até hoje nos inspiramos, quando dá tempo, em pensadores de milênios atrás. E hoje multiplicam-se aquelas igrejas, em um consolo espiritual para aqueles que começam a tentar entender alguma coisa além do que a sociedade ensina. Mas isso aí também vai e vira algo que dizem pro cara que ele tem que fazer: ir à igreja. Havia um tempo em que os templos sequer tinham paredes. O cara não ia lá louvar o que diziam pra ele que ele devia louvar. Ele ia lá pra tentar entender, pois ele ainda tinha o tempo e a habilidade de questionar, de tentar perceber uma realidade maior, algo além da vida social dele. Hoje a igreja é social. Adorar a Deus é politicamente correto, mesmo que você não entenda muito bem o porquê disso. E vista sua melhor roupa para ir à igreja.
Esses antepassados tinham a incrível habilidade de pegar situações, sentimentos, coisas e fatos da vida e transformá-los em deuses, personagens em histórias que então seriam os símbolos do teatro da vida. Daí chegamos nós, modernos e super inteligentes, e dizemos que pela "ignorância" deles, eles adoravam aqueles deuses porque não tinham a tecnologia para entender o que é a realidade. Dizemos que eles estavam enganados. Damos valor negativo às palavras "mito" e "lenda" sem nos darmos conta de que muito da mitologia é sabedoria de vida transformada em símbolos. As histórias não eram feitas parar adorar, e sim para compreender.
E aquelas pedras? Aquelas construções antiquíssimas que mesmo com a nossa moderníssima tecnologia não conseguimos reproduzir? É só pôr a etiqueta de "mistério" e tá tudo bem. Continuamos fazendo modernos cálculos pra tentar descobrir. Seguimos numa linha de raciocínio sem perceber que antigamente a lógica era outra. Será que estamos realmente no caminho certo? Será que não estamos deixando algo muito importante pra trás? Será que nós, super-homens modernos, que fazemos de tudo e mais um pouco, que respondemos à pergunta "quem sou eu?" dizendo o número do RG, será que somos tão melhores do que aqueles que sequer precisavam de documentos? Em que sentido o conhecimento humano está evoluindo? E a que custo?
Esse texto mesmo não era pra existir. Comecei a escrevê-lo quando eu devia estar indo dormir, noite de sexta, para acordar às 6 da manhã de sábado, para trabalhar. Assim caminha, ou melhor, corre e voa a humanidade.

